À Porta de Casa

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Quando cheguei à porta do meu quarto, reparei que estavam uns ténis do lado de fora da porta do quarto ao lado. Eram grandes. E pretos. E, ao que parecia, deviam pertencer a alguém civilizado sem vontade de sujar a alcatifa.

“- Melhor não lhes tocar.”. Pensei. E assim os deixei: alinhados com os cordões atados, inertes em posição de espera, à porta do quarto 22.

Quando desci para a sala de jantar, o Mateus sentou-se ao meu lado. E adivinhe-se quem é que ele trouxe para jantar? O pai, o Alfredo, e o par de Converse pretos tamanho 45, calçados nos pés.

Com que então o misterioso dono dos ténis e vizinho do quarto ao lado, era o filho da casa. Claro, faz sentido. Dentro da toca, ninguém precisa da defesa de uma sola de borracha. A sola dos pés lida bem com o facto de estar despida, e entregue ao chão que reconhece.

Talvez hoje deixe as minhas sandálias soltas do lado de lá da porta. Também eu me sinto em casa, e também eu quero estar com os pés na terra, e, nesta família, há espaço para todos. Por isso sei, que não há quem me vá mandar fazer o contrário.

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