Pssstt…
Acorda cigarrinha! Sai da toca, quando me vires sair do quarto 23. Levanta-te de um salto e segue-me, pelo caminho de pedra. Vem começar o dia a estrear a piscina com o primeiro mergulho de todos. Depois deita-te outra vez. Estás pronta para levantar voo? Aqui vamos nós: 3,2,1… Fecha os olhos!
Consegues ouvir os passarinhos cigarrinha? Cantam quase tão alto como tu! Tão bem, não diria, mas isso é uma questão de gosto… E o céu? Consegues vê-lo? Está pintado de azul e salpicado de branco, nas formas engraçadas que formam as nuvens gordas. Tem cuidado, não olhes diretamente para o sol. Ele pode ser calor na pele, mas mata a vista à queima-roupa.
E o cheiro?! Cheira bem, não cheira? É a figueira que apura o ar. Ou será o aroma da folha de laranjeira? Ou os eucaliptos que ladeiam a estrada? Ou mesmo outras plantas que não sei o nome, trazidas em segredo no sussurrar da brisa? Seja quem for, caprichou no perfume.
Então, amiga cigarra, agora diz-me: Já provaste o sumo de um pêssego nascido em junho? Eu já. E deliciei-me de tal maneira, que repito a dose todos os anos. Toma lá uma trinca. Mas não abuses. Tudo o que é demais enjoa
Fica aqui, cigarrinha. Sente a paz que te cala o piu e desarma a ânsia de cantar. É silenciosa e mansa… Se te concentrares bem, és capaz de ouvir nela mil e uma canções. Mas não te metas. Deixa que tudo te chegue, sem puxar. Só assim, terás o que precisas.
Já viste como é bonito o dia? A melhor parte de todas, é que ainda agora começou! Ainda se pode experimentar, e ver, e fazer, e sentir, e ter, e ser um monte de coisas! Até mesmo quando o sol se cansar
este frenesim todo, o show continua, com os holofotes a apontar a Lua. Ao inclinares o queixo em direção à luz, vais ter de te esforçar para não o deixar cair, quando a Lua te surpreender ao dançar acompanhada de mil e uma estrelas.
Pensando bem, talvez seja melhor ires dormir de novo, porque o teu cigarrear é a banda sonora do grande espetáculo. Desculpa se te importunei, querida amiga, mas deixei-me levar… Às vezes é difícil de acreditar no quão maravilhosas são as coisas, quando não temos ninguém ao lado para nos beliscar.
Por isso, vem só quando chegar o teu momento, e agarra-o como só tu fazes. Mas leva o teu tempo, cigarrita. Eu levarei o meu. Verei por mim, sentada comigo, de frente para este espetáculo de cenário campestre, como a beleza das pequenas coisas está em deixá-las ser apenas quando for hora para isso.


